ATENÇÃO: “O Monstro das Cores” e as citações cruzadas

Na última sexta-feira (2), a Aletria Editora foi informada pela equipe de jornalismo da Inter TV RJ, sediada no município de Nova Friburgo e afiliada da Rede Globo, sobre a existência de apostilas que fazem referência à obra “O Monstro das Cores”, mas cujo conteúdo contém propostas que podem ser consideradas de conotação racista. 

Imediatamente, nós constatamos que o material voltado para estudantes do 1º ano do ensino fundamental das escolas da rede municipal de Nova Friburgo não era baseado no texto da versão brasileira da obra escrita pela catalã Anna Llenas com tradução de Rosana de Mont’Alverne, editora da Aletria.

Fomos surpreendidos com essa notícia e com a precariedade do material escolar, que iria circular nas escolas da rede municipal daquela cidade, inclusive divulgando uma suposta imagem de capa do livro muito diferente daquela presente nos exemplares publicados por nós com exclusividade no Brasil desde 2018. Nós também temos constatado, a partir de algumas pesquisas na internet, que algumas atividades educativas têm feito referência a “O Monstro das Cores” e as ilustram com a capa do livro na versão espanhola, o que não é a mesma coisa, pois, embora tenhamos o direito de publicação da obra no Brasil, a nossa versão é traduzida para o português e com um olhar atento para a realidade do nosso país.

“O Monstro das Cores”, que em sua versão original é intitulado “El Monstruo de Colores”, conquistou um grande número de apreciadores, pois permite, de maneira amplamente reconhecida por especialistas da área da educação, trabalhar a compreensão das emoções com o público infantil. O livro se tornou um grande sucesso, e atualmente possui versões em diferentes línguas e inspira trabalhos diversos. Dentre eles, a canção “Monstro das Cores”, criada por um grupo de Portugal, e cuja letra foi usada pela apostila de Nova Friburgo.

Estamos entendendo, a partir desse caso, que situações de referências cruzadas a “O Monstro das Cores” acontecem e podem vir a se tornar ainda mais frequentes, dada a dinâmica da internet e das redes sociais. E não consideramos isso um problema quando essas citações instigam as pessoas a irem atrás da obra que passou por um tratamento editorial, pelo crivo de uma equipe que se preocupa em oferecer um conteúdo de qualidade e totalmente comprometido com a formação dos indivíduos e com a plena proteção e promoção dos direitos humanos. 

Agora nos preocupa muito quando um trabalho de anos, como o que temos realizado na Aletria com “O Monstro das Cores”, é associado a práticas que dão margem a interpretações racistas, principalmente dentro de sala de aula, lugar de defesa da busca pela liberdade de pensamento, do olhar crítico, do respeito às diferenças e da produção de saberes. O material educativo que nos foi apresentado pela equipe de reportagem da emissora Inter TV RJ trazia fragmentos daquela canção que associava o sentimento de medo aos termos “negro”,  “escuridão” e “ladrão”, o que foi questionado pelo Coletivo Negro Lélia Gonzalez.  

Reiteramos que na versão brasileira de “O Monstro das Cores” não existe esse tipo de associação e nem mesmo a palavra “negro”. Nossa edição inclusive veio a público com um guia de leitura com sugestões muito detalhadas de como se apresentar e inserir a obra no cotidiano das salas de aula. Especialmente hoje, 3 de julho, em que se celebra o dia Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, nós viemos publicamente demonstrar nosso repúdio a qualquer iniciativa que se coloque na contramão das diretrizes que orientam as lutas pela igualdade racial no Brasil.

Concordamos também com a educadora e escritora Janine Rodrigues, ouvida pela reportagem da Inter TV RJ, que defende a necessidade de se avaliar os conteúdos a partir de uma perspectiva crítica antes de eles serem levados aos estudantes. Usar fragmentos de textos concebidos em outras realidades e inseri-los no contexto do nosso país sem uma análise criteriosa do modo como ele dialoga com a nossa história, que é marcada por um racismo estrutural, pode auxiliar na perpetuação de vários tipos de violência, em vez de contribuir para a formação de novos cidadãos, o que não podemos tolerar de maneira alguma.

Clique aqui e acesse o guia de leitura de “O Monstro das Cores”.