No retorno às aulas, crianças mostram que têm muito a ensinar aos adultos

 

Ir à escola gera certa ansiedade no Monstro das Cores

Em “O Monstro das Cores Vai à Escola”, da escritora catalã Anna Llenas, esse personagem experimenta uma realidade completamente nova. E como era de se esperar, um monte de dúvidas começa a pipocar na imaginação do monstrinho, que, aos poucos, baixa a guarda e começa a curtir as várias experiências proporcionadas pelo ambiente escolar. Esse é um outro capítulo na vida do protagonista que já foi apresentado no livro anterior da autora, “O Monstro das Cores”.

Publicada há um mês pela editora Aletria, com tradução de Rosana de Mont’Alverne, a narrativa de “O Monstro das Cores Vai à Escola” serve como uma metáfora daquela etapa comum à vida das crianças, quando elas passam a dividir o seu tempo entre a casa e a escola.

Embora esse livro tenha saído recentemente no Brasil, ele foi lançado pela primeira vez na Espanha em 2018, ou seja, muito antes de todo o planeta enfrentar uma pandemia que tem exigido um intenso combate à disseminação do novo coronavírus, demandando medidas restritivas como a suspensão das aulas, entre outras atividades presenciais.

Desde março de 2020, muitas crianças, que já estavam familiarizadas com a rotina escolar precisaram se readaptar ao cotidiano dentro de casa. Então, o costume de encontrar os colegas, os professores, e a agenda com diversas ações foram interrompidos bruscamente. Isso só começou a ser retomado, na capital mineira, no fim de abril de 2021, com a autorização da prefeitura, que liberou a reabertura das escolas exclusivamente para a educação infantil.  E, em breve, no dia 21 de junho, está prevista também a retomada das aulas para as turmas do ensino fundamental.

Mesmo assim, como explica Natália Araújo, que é subsecretária de educação de Belo Horizonte, o protocolo a ser seguido é muito rígido. “São pouquíssimas crianças por ‘bolha’, nome que se dá ao agrupamento de contato entre eles. Tudo acontece entre alunos deste agrupamento, que não é maior do que seis crianças, e os alunos não têm nenhum contato com crianças de outras bolhas e só interagem com o adulto. A alimentação é em sala e a utilização de espaços coletivos da escola se dá sob agendamento”, detalha ela.

O Monstro supera o medo na companhia dos colegas

Portanto, só mais de um ano depois é que os pequenos puderam se reconectar com as escolas, mas agora remodeladas, com um funcionamento diferente daquele com o qual estavam familiarizados. Para recebê-los com segurança, os ambientes escolares tiveram que incorporar novos procedimentos e trabalhar outros conteúdos, os quais interferem na forma como as crianças interagiam entre si, com os professores e com todo o entorno. Assim, elas se viram adentrando um território, de certa forma, ainda “inexplorado”, como o próprio Monstro das Cores.

E os desafios não se restringem àqueles relacionados às questões de biossegurança, mas também à forma de abordar esse contexto com as crianças. “É importante que todos nós estejamos cientes de que elas ficaram um ano fora das escolas, longe dos seus pares, das brincadeiras, de movimentos que são necessidades inatas que elas possuem, e neste momento são fundamentais. Então, é normal que as crianças retornem mais inseguras porque passaram todo esse período ouvindo que o lugar de segurança era a casa junto com a família”, explica a pedagoga Aline França.

Para a educadora, importantes aliados nesse processo de transição podem ser os livros, as contações de história, entre outras formas de arte, que contribuem para o desenvolvimento dos indivíduos. “Através dessas narrativas, é possível se comunicar com as crianças pela linguagem da fantasia. Quando a criança interage com essas histórias, ela consegue trazer para o mundo real aquelas situações fantasiosas que ela vivencia na brincadeira. Ou seja, ela consegue buscar formas de resolver algumas coisas por meio daquele repertório apresentado pelo universo lúdico”, afirma Aline.

De lá pra cá, contudo, em vez de apenas aceitar os direcionamentos dos adultos, são as crianças que têm dado aula para muita gente grande por aí. “Elas, sobretudo essas de 0 a 5 anos que voltaram às escolas, ensinam a cada dia como são responsáveis e comprometidas com os acordos estabelecidos para a boa convivência”, diz Natália.

“Elas não têm o apego que temos com as velhas práticas e talvez sejam uma geração que não se lembrará do mundo que conhecemos. Para elas, muitas regras e hábitos que nos constrangem, será o normal. É uma grande lição de desapego e aceitação da transitoriedade da vida olhar para elas tão felizes como vimos neste retorno escolar”, completa a subsecretária de educação de Belo Horizonte.

Visão semelhante é compartilhada pela pedagoga Aline, que sublinha a vantagem de acolhermos o modo como as crianças encaram a vida. “O maior aprendizado que podemos tirar disso tudo é a pureza e a esperança que existem no coração delas, a facilidade de se adaptarem ao novo, às escolas e à sociedade como um todo. Durante muito tempo nos perguntamos como as crianças iriam lidar com tudo isso, e a minha experiência nas escolas só têm mostrado que elas se adaptam muito mais fácil do que os adultos. Essa é a maior lição que elas nos deixam”, finaliza Aline.

 

*Carlos Andrei Siquara, em especial para Aletria