A realidade da criança é a brincadeira

“Era criança de pé no chão.

Despenteada e de vestidinho florido de vermelho,

tinha juntas encardidas e sujeira debaixo das unhas”

A Aletria lançou, em junho de 2017, uma preciosidade com cheirinho de terra molhada e gostinho de travessuras, o livro Buriti Grande, de Marismar Borém com ilustrações de Lelis. Na obra, a autora apresenta o mundaréu de aventuras que os dias na roça, na casa dos avós de “cabelos branquinhos”, lhe garantiam. Era brincadeira e traquinagem que não acabava mais, com toques de jabuticaba e emolduradas por rios e pomares.

Mas, as infâncias são tão diversas quanto a própria humanidade. Tem infância na roça e infância na cidade grande. Infância compartilhada com várias outras infâncias e infâncias que são um pouco mais sozinhas. Infância no apartamento e infância na casa com quintal.

Infância no bairro rico e infância na quebrada. Infância beira mar, beira asfalto, beira rio, córrego, piscina e cachoeira. O que deve sempre ter e transbordar é infância, e o que há de comum a todas elas é que são sempre etapas de descobertas e construção de relações com o mundo que lhes cerca. Nada é tão aberto ao novo, original e inventivo quanto a infância.

Pra falar um pouquinho mais sobre esse assunto importantíssimo e recheado de nostalgia, a gente convidou a arte-educadora Cristina Braga, que é responsável pela coordenação artístico pedagógica dos projetos do Instituto O Pequeno Pajé. Acompanhe nosso bate-papo:

Cristina, a gente pode dizer que o Instituto O Pequeno Pajé encara o desafio do resgate à arte de brincar em um espaço cada vez mais endurecido e limitado? Como e por que O Pequeno Pajé foi criado? 

Primeiramente, é importante que façamos o exercício de desconstrução da ideia de que “as crianças de hoje não brincam” ou de que “as crianças de regiões urbanas brincam menos.” A realidade da criança é a brincadeira e é assim que elas se relacionam com o mundo. Brincando.  E se o mundo é incrivelmente diverso e dinâmico, assim também é a manifestação do brincar presente nele. Esse brincar se transforma, se adequa, mas não se extingue e nem se perde.  Devemos evoluir a ideia de que estamos “resgatando a arte de brincar” para a compreensão de que somos nós, pessoas adultas, que estamos reaprendendo a olhar para o que sempre esteve aqui, diante de nós, apontando caminhos para uma vida mais plena e feliz. Estamos reaprendendo a nos relacionar com a infância a partir do modo como ela se expressa. O Pequeno Pajé surge justamente deste entendimento e da crença de que é na relação com a nossa infância interior e na proteção da infância de agora que obtemos as sementes para um futuro mais harmonioso.

Brincadeiras, peraltices e reinações são traços típicos da infância e são as maneiras que a gente inventa, quando criança, de descobrir o mundo a nossa volta. Como eles integram o processo de autoeducação e qual sua relevância nesse processo? 

O conceito de “autoeducação” apresentado por Rudolf Steiner (pai da antroposofia, nossa bibliografia de base) está relacionado com a liberdade do indivíduo em querer aprender, com uma postura individual preenchida de vontade própria de aprimoramento. O “suporte” para essa autoeducação está basicamente numa prática intimamente vinculada à teoria. Mais do que a capacidade de aprender, está a importância de se realizar com o processo que conduz ao aprendizado. No caso da criança, essa capacidade é gradativamente estimulada pelo educador que considera as etapas de desenvolvimento do ser humano e as necessidades de nossa alma em cada uma dessas etapas. O brincar é uma necessidade da alma humana durante a infância. Pela brincadeira a criança não só descobre o mundo, mas o compreende de modo prático e intuitivo num poderoso exercício de liberdade e criatividade para a vida adulta. Assim como uma escola de música não garante que cada aluno se tornará um concertista, mas durante a permanência dos alunos ela oferece experiências que amplificam o desenvolvimento humano para a execução musical, o brincar infantil opera com princípios preparatórios para a futura possibilidade da liberdade humana.

Com o tempo, a gente foi migrando das casas com varanda, quintal e horta para “apertamentos” em prédios cinzas, compridos de concretado armado; das férias na roça cercada de mata, água limpa, criações e céu cheinho de estrelas para o playground do condomínio e a vida digital – ainda que prática – vivida em telas cada vez menores. De que forma isso alterou os processos de autoeducação das crianças?

Partimos do tradicional princípio de que com a criança “menos é sempre mais”. Quanto menos informação um brinquedo contiver, maiores serão as forças desenvolvidas no interior da criança para a criatividade e compreensão do espaço em que ela está inserida. Quanto mais simples for um brinquedo (ou o espaço de brincar), mais próximo ele fica da ideia de unidade, do “todo”. Essa ideia de completude é desenvolvida no interior da criança fazendo com que ela não apenas compreenda o mundo, mas sinta-se integrada a ele. Vamos colocar o seguinte exemplo: quando uma criança pensa “eu quero um carrinho”, existe todo um processo que vai do entendimento de como o carrinho se locomove, no tamanho que o carrinho terá, na textura, cores… E então ela vai buscar os materiais necessários para materializar a ideia do carrinho, construindo, medindo, elaborando, experimentando, até que se concretize o brinquedo. No entanto, se esse carrinho lhe chega pronto tão logo ela o deseje, uma lacuna enorme é deixada nessa alma em desenvolvimento impedindo o importante processo de integração entre o pensar e o agir consciente. É justamente nesta integração que estão as bases para uma vida adulta cujas escolhas e ações são canalizadas em trabalhos a favor do mundo.

Proteger as crianças é dever de pais, familiares, educadores e de toda a sociedade. No entanto, por vezes, nós adultos erramos a mão e acabamos subestimando a infância, superprotegendo e restringindo as crianças a espaços e vivências limitados. Porque é importante dar mais liberdade aos pequenos em suas experiências? Como o acesso e convívio das crianças com espaços e realidades diversos enriquecem sua aprendizagem e construção da sociabilidade?

Nelson Mandela disse uma vez que “não existe revelação mais nítida da alma de uma sociedade do que a forma como esta trata as suas crianças”. Costumo brincar que, assim como a larva é uma etapa da borboleta, a criança é uma etapa do adulto. Se a criança não acessa a rua, parques e espaços públicos em geral, teremos um adulto que não se integra harmoniosamente à cidade. Se a criança não compreende e se relaciona com a natureza, teremos um adulto que não se sente parte dela e não se compromete com sua proteção e preservação. Se a criança é privada da diversidade humana, teremos um adulto cuja intolerância e o preconceito guiarão atitudes nocivas para a sociedade e para si mesmo. Se o que desejamos e ansiamos é uma sociedade melhor, mais equilibrada e possível, devemos cuidar com consciência da primeira etapa de construção desta sociedade. E o nome desta etapa é infância.